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A Vida em Xeque (Final)
Mas em Novembro de 1921 ocorre uma tragédia inesperada: vitimado por ataque cardíaco, com apenas 28 anos de idade, morre o engenheiro Gyula Breyer – Campeão Húngaro de Xadrez aos 19 anos de idade, estudioso, teórico, inovador, criador de novas linhas de aberturas.A comoção foi geral, como costuma acontecer, mas o torneio foi mantido e, como homenagem, ganhou o título de “Memorial Gyula Breyer”. Todo esse emaranhado de tragédias era um prato cheio para escritores, roteiristas, romancistas – mas a ideia caiu no colo de Stefan Zweig, ele mesmo um poço de tragédias! Por isso ninguém deve se admirar que surgisse mais um fantasma: note-se que Stefan Zweig, para ilustrar com todas as cores o drama psicológico ocasionado pela tortura mental, selecionou uma partida vigorosa, disputada detalhe a detalhe, peça por peça, até chegar a um final simplificado de Torres Cavalo e Bispo – porém sem vencedores: a partida resultou empate! Ademais, analisando-se a continuação da partida (se houvesse), não deixava espaço para a paz. A nenhum dos adversários era dado o direito de errar, sob pena de sofrer categórica derrota. É o ‘acordo de paz’ (empate) ou nada. Nessa partida, como nas guerras, não há vencedores...
O escritor austríaco Stefan Zweig (Viena 1881-Petrópolis 1942), também aficionado do xadrez, passou aqui no Brasil os últimos anos de sua vida. Pacifista assumido desde aquele conflito, que viveu em família, junto com vários amigos e o escritor Romain Rolland, liderava movimentos pacifistas, contra conflitos advindos de racismo, da política belicista e de controle e dominação – aos quais toda a Europa se submetia a partir de ideias inéditas e desconhecidas, vindas com o Novo Nacionalismo. Ainda jovem estudante, Stefan Zweig sofreu os horrores da I Guerra (1914-1918) e, em plena maturidade, já famoso literato e poeta, repetiu dor pior ainda com a II Guerra (1939-1945). Nos dois conflitos o xadrez perpassou por sua vida.
Desta segunda vez, sentindo-se impotente e sofrendo danos éticos e morais, Zweig recebia convites para palestras, congressos, festividades – especialmente na Argentina e no Brasil, onde era admirado best-seller e já havia visitado anteriormente. Aqui ganhou a simpatia da Primeira-Dama Darcy Vargas, recebeu visto permanente, honrarias e escolheu a cidade de Petrópolis como residência. Ali encontrou a paz e a tranquilidade que buscava para concluir romances, artigos, cartas e biografias que o fizeram famoso. Mas no ano de 1942, já com os nervos abalados (apesar das sessões com Dr. Sigmund Freud), novo desespero moral o abate. Ao ver a proporção nefasta da guerra, sob a ótica pacifista de quem viveu conflito igual na juventude, multiplicado pelo horror das armas modernas, armas químicas, gases, além da perseguição às minorias étnicas, sobreveio a ideia do suicídio. No entanto, a trágica decisão guarda nuance de mistério. Já apegado ao país que escolheu para viver, para ele não passou despercebido o rumo político ambíguo do governo Vargas. Assistiu, com tristeza, algumas medidas do Governo simpáticas ao Führer, a deportação moralmente injustificável de Olga Benário, a indecisão de proclamar-se contra o conflito. Todos esse jogo político (que só terminou com a visita de Roosevelt e da Comitiva Norte-americana), abalou mais ainda as convicções de Zweig.
Stefan Zweig, além de jogar gamão e dama, era também aficionado do xadrez. Desde jovem se acostumou ao segredo das peças e do tabuleiro, partidas que disputava nos cafés de Viena. Porém, somente na maturidade viria o xadrez inspirar a criação de uma novela, no estilo dramático e psicológico característico
de suas produções, “A partida de xadrez” (Schachnovelle), foi finalizado no Brasil em 1942, ano da morte do autor. Um texto que ressaltava terrorismo psicológico usado pela SS, incluía interrogatórios e inquéritos de toda ordem, com o objetivo de provocar cansaço mental e obter o que queriam. Já na última fronteira da resistência física e moral, resolveu confessar tudo. Mas, eis que surge a oportunidade de surripiar um livro: a leitura daria mais resistência e prorrogaria a insanidade. Pegou o livro, mas surpreso viu que se tratava partidas de um torneio de xadrez. Mesmo assim era um modo de fazer o cérebro trabalhar noutra direção. Logo estava reproduzir as 150 partidas do torneio, com participantes famosos: Alexandre Alekhine, Emmanuel Lasker, Efim Bogoljubow, Akiba Rubinstein, Savielly Tartakower, passaram a ser compartilhados, a fazer parte do dia a dia. O drama, porém, é que tudo chega a um limite, a mente alcança a exaustão, tudo se exaure, se torna monótono, preocupante: é quando chega a loucura da repetição, fazer tudo de novo, de novo, mais outras vezes. Chega às fronteiras da loucura. Depois de examinado pelos médicos militares, a demência é diagnosticada. O advogado se tornou inútil, é libertado e obrigado a deixar o país. Bom, acho que é o suficiente para o leitor adquirir o livro e saber como se deu o clímax dessa novela.
O interessante é que Stefan Zweig não encontra explicação clara para a loucura advinda da reprodução contínua de tantas partidas, em situação extrema. Mas conclui que a doença “era uma forma absolutamente patológica de superexcitação psíquica”, a que denominou intoxicação por xadrez, síndrome que acomete os viciados que não pensam noutra coisa na vida além do xadrez. Na verdade é tudo especulação à luz das teorias de Freud, de quem Zweig era admirador, amigo... e paciente. E pensar que convivemos diariamente com tantos doentes contaminados pela “intoxicação por xadrez”.
A raiz desse conto remonta ao ano de 1936. Várias personalidades internacionais, entre autoridades, escritores e artistas, foram convidadas pelo Governo Argentino, com o apoio do Pen Club Internacional, para participar das comemorações dos 400 anos da primeira fundação da cidade de Buenos Aires. O Teatro Colón estava em festa com programação de gala; o PEN Club realizava um Congresso com fervorosos debates; a imprensa cobria páginas com fotos e notas; os espectadores comentavam os destaques do dia. Os salões exibiam obras de pintores e escultores locais e latino-americanos; compositores e representantes de todas as artes participaram dos eventos. Além dos escritores das Américas, vieram Stefan Zweig (Áustria) , Jules Romain (França), Emil Ludwig (Alemanha), Tommaso Marinetti e Giuseppe Ungaretti (Itália),além da participação intensa dos escritores e poetas locais Victoria Ocampo, Arturo Capdevila, Manuel Galvez, Jorge Luis Borges, Eduardo Mallea, entre outros. Voltando à Schachnovelle, a partida que serviu para ilustrar a trama psicológica está citada, não é reproduzida, mas Zweig deixou pista: Alekhine vs. Bogoljubov, 1922. E assim se pode determinar o lance chave de toda a trama: “Não! Por amor de Deus não faça esse lance!” – gritou ele, interrompendo a partida”. Foi assim que tudo aconteceu...
[Event "Piestany 1922"]
[Site "Piestany CSR"]
[Date "1922.04.23"]
[EventDate "1922.04.23"]
[Round "15"]
[Result "1/2-1/2"]
[White "Alexander Alekhine"]
[Black "Efim Bogoljubov"]
[ECO "C78"]
[WhiteElo "2700"]
[BlackElo "1610"]
[PlyCount "93"]
1. e4 e5; 2. Nf3 Nc6; 3. Bb5 a6; 4. Ba4 Nf6; 5. O-O Be7; 6. Nc3 b5; 7. Bb3 d6; 8. a4 b4; 9. Nd5 Na5; 10. Ba2 Nxd5; 11. Bxd5 c6; 12. Ba2 c5; 13. c3 Rb8; 14. Bd5 O-O; 15. d4 exd4; 16. cxd4 c4; 17. Be3 Be6; 18. Bxe6 fxe6; 19. d5 e5; 20. Rc1 Qd7; 21. Ng5 Bxg5; 22. Bxg5 Rbc8; 23. Qe2 h6; 24. Bh4 Rf7; 25. Bg3 Qxa4; 26. f4 exf4; 27. Bxf4 Qb5; 28. Bxh6 c3; 29. Qg4 Qd7; 30. Qxd7 Rxd7; 31. bxc3 bxc3; 32. Bd2 Rdc7; 33. Bf4 Nb3; 34. Bxd6 Rf7; 35. Rxf7 Nxc1; 36. Rf1 Nd3; 37. Ba3 c2; 38. d6 Kh7; 39. h4 Rc4; 40. e5 Nxe5; 41. Bb2 Rc8; 42. Rc1 Nd7; 43. Kf2 Kg6; 44. Ke3 Rc6; 45. Bd4 Nf6; 46. Kd3 Rxd6; 47. Rxc2 (1/2-1/2)
Três épocas serviram de canário para que eventos ocorridos fossem retratados pela História, pelo Xadrez e pela Arte. Nesta partida, quando as brancas acabam de jogar 38. d6 é a cena que Stefan Zweig escolheu como ápice da cena que antecede o desfecho do drama – “Não! Por amor de Deus não faça esse lance!” – gritou ele, interrompendo a partida”. É a própria História que se faz ficção. O vigor da dramática situação já serviu como tema de filmes, teatro e outras formas de arte. E não foi ao acaso que Stefan Zweig escolheu essa magnífica partida de xadrez para o inspirado texto: a batalha se desenvolve no campo intelectual e as vantagens oferecidas a ambos os lados surgem e desaparecem a cada lance, em ataque, contra-ataque e defesa. Um espetáculo, uma luta titânica de dois gênios do xadrez que iniciariam, no longínquo 1922, a travessia do jogo romântico para o Xadrez Hipermoderno de Aarom Nimzovich Richard Réti, Gyula Breyer e outros inovadores.
Fim