Salomao Rovedo
Interzonal do Rio de Janeiro 1979 (I)
O maior feito de Sérgio Farias na Presidência da C.B.X. foi trazer o Interzonal Masculino e Feminino de 1979 para o Rio de Janeiro. O evento foi realizado no Copacabana Palace Hotel, sob o patrocínio da Atlântica-Boavista Seguros, leia-se, Antônio Carlos de Almeida Braga – mecenas dos esportes. Braguinha (como era conhecido), patrocinou várias modalidades esportivas. Assim que a Atlântica-Boavista topou patrocinar o Interzonal de Xadrez, Sérgio Farias me promoveu a Assessor, Secretário, pau pra toda obra, isto é, um faz-tudo.No Interzonal do Rio de Janeiro de 1979 fiz parte da equipe técnica da Organização, do Boletim Oficial, o que fosse. O time era formado por Claude Fisch, Bruce Kover, Luismar Brito, Luís Loureiro, Cristóvão Kubrusly e muitos outros. Brasileiros, jornalistas, correspondentes estrangeiros, apareciam por lá para dar uma mão e pescar notícias exclusivas. Assim que a partida terminava, a planilha do anotador ia direto às nossas mãos. Começava a revisão, classificação da abertura, copiagem (que também era revisada), o quadro progressivo, só então o boletim era finalizado e reproduzido. Uma hora depois de terminada a rodada, o boletim era disponibilizado, distribuído à imprensa local e internacional. Éramos uma equipe invisível, mas eficiente. O primeiro a receber o Boletim de minhas mãos era o boa-praça Sir Harry Golombek – Árbitro Geral da competição –, velhinho simpático, lenda do xadrez inglês, a quem não deixava faltar água e café. Conheço lojas na Rua 1º de Março que vendem aquela miniatura com bandeirinhas de todos os países. Comprei um bem bonito, com as bandeiras do Brasil e da Inglaterra lado a lado e no dia seguinte botei discretamente na mesa de Sir Golombek no anfiteatro onde as partidas eram disputadas. Quando chegou viu as bandeirinhas e olhou para mim, eu fiz sinal de OK, ele sorriu agradecendo e as flâmulas só saíram de sua mesa ao final da competição, direto para Londres. Harry Golombek (1911-1995), campeão inglês em 1947, 1949, e 1955, recebeu o título de MI em 1950 e de GM honorário em 1985. Era Árbitro da FIDE, atuou no match entre Mikhail Botvinnik vs. Tigran Petrossian, em 1963. Defendeu a Inglaterra em nove Olimpíadas de Xadrez e foi o primeiro jogador britânico a se classificar para um Interzonal. Jornalista de xadrez no The Times e editor da British Chess Magazine, Golombek traduziu muitos livros de xadrez do russo para o inglês. Em setembro de 1939, Golombek estava em Buenos Aires, competindo na Olimpíada de Xadrez juntamente com C. H. O'D. Alexander e Stuart Milner-Barry, quando tiveram de retornar de imediato à Inglaterra. Ali foram chamados a Bletchley Park, onde funcionou o Centro de Inteligência que “quebrava” a criptografia dos códigos secretos. Golombek trabalhou na seção responsável que descobriu a codificação do encriptador naval alemão “Enigma”. Também é autor da Golombek's Encyclopedia of Chess (Batsford-Crown-1977), que pedi a ele para autografar. Peguei também o autógrafo de muitos jogadores que participavam do Interzonal e estavam citados na Enciclopédia. Esse livro eu não tenho mais: algum amigo me pediu e eu dei, ou vendi, ou coisa parecida... Como, aliás, tudo que eu tive sobre xadrez.
Quando conseguia ver alguém da turma de famosos era só de passagem: Petrossian, calçado de meia e chinelos, com a esposa a tiracolo (uma armênia atarracada e muito séria); a superestrela Sônia Braga, frequentando o Interzonal e o Clube de Xadrez Guanabara, forma de fazer laboratório para o próximo trabalho (sempre tinha tempo para passar no Bulletin Team para dar um alô simpático); o Hubner andando sempre em disparada como um louco. Os que se interessavam, nos visitavam sempre: o jovem MI Murray Chandler, Guillermo Soppe, cuja irmã Edith Soppe jogava o Interzonal Feminino, Zsuzsa Veroci-Petronic (Vice-Campeã do Interzonal), fez amizade com Claude Fisch e falavam francês, Mark Dvoretsky, Treinador das jogadoras russas. Mark aparecia com artigos manuscritos em cirílico, para tirar cópia. Era cada calhamaço com análise das partidas, as aberturas jogadas, reportagem sobre o Interzonal, projetos de livros!Na ocasião, fiz amizade com o Vice-Presidente da FIDE Américas e Guillermo García, menino-prodígio, ambos cubanos. Guillermito – ídolo em sua terra – era assim conhecido pela sua baixa estatura. Em certo momento do torneio Guillermo Garcia esteve com nove partidas suspensas! Esse problema foi levado à Direção do Torneio e ficou decidido que as partidas tinham que estar encerradas na penúltima rodada. Guillermo Garcia era conhecido como exímio finalista, assim, apresentei o Luismar Brito para ajudá-lo. O risco era perder a partida por atraso. Ele agradeceu e, tranquilão, nos mostrou as partidas, uma a uma! Todas as nove já estavam resolvidas.Guillermo García na época estava com apenas 26 anos de idade e fumava pra cacete. Certa vez ele me chamou e disse: – Salomón, o meu cigarro acabou. Onde encontro aqui? Perguntei que tipo de cigarro ele gostava: – Humo duro, respondeu. Ele gostava de cigarro forte, fumo duro, o mais pesado que tiver. Mais ou menos parecido com o “puro” havanês. Prometi trazer. No dia seguinte, passei pela Tabacaria Africana, na Praça XV de Novembro, onde achei o Caporal Amarelinho, que era nosso cigarro mais forte, daquele que os fumantes costumam chamar “arrebenta peito”. Comprei dois pacotes com dez maços cada e dei a ele. Ele perguntou quanto era, queria pagar: – Un regalo – respondi. Alguns dias depois quis saber o que ele achou do nosso cigarro: – Bom, muito bom, disse, mas um pouco fraco. Guillermito nasceu em 1953, começou com seis anos; aos 16 anos derrotou o GM Oscar Panno no Torneio Capablanca In Memoriam, Campeão Juvenil de Cuba em 1971, escore de 11/11 (!); Tricampeão Absoluto Nacional; aos 21 anos fez a primeira norma de GM em Las Palmas 1974; obteve o título em Orense dois anos depois; disputou os Torneios de Zurique, Plovdiv, Caracas, Orense, Cidade do México, Medellín, Maspalomas, Portugalette e Pontevedra. Em 1988, no New York Open “Centenário de Capablanca”, ficou em 2º lugar, com desempenho ELO de 2709 pontos! No fortíssimo Interzonal de Moscou de 1982, começou de modo espetacular perfazendo 5,5 pontos de 6 possíveis. Em Cuba ganhou fama por ter sido o primeiro criollo a vencer o Premier Capablanca In Memoriam, em Cienfuegos 1977. Guillermo Garcia faleceu em Havana, num acidente de trânsito, aos 47 anos de idade. Pelas imagens daquela cidade, pergunto: – Quem morre em acidente de trânsito em Havana? ¡Carajo!

